Return to site

Uma tarde no colégio.

Estar presente a uma exibição seguida de debate do filme Relatos do Front é como vivenciar uma experiência de realidade aumentada, sem ter que usar dispositivos eletrônicos e correr o risco descabido de ser atropelado ao distrair-se caçando um bichinho japonês no smartphone.

Pelo contrário, ao invés de mergulharmos num mundo virtual para onde, muitas vezes, queremos fugir, terminada a sessão de Relatos do Front, os personagens parecem saltar da tela, tornando única e mais real nossa experiência.

E foi o que aconteceu no dia 18 de setembro, no colégio Pedro II (CPII), no Humaitá, onde houve mais uma exibição do filme do diretor Renato Martins.

A partir de uma iniciativa do professor Cristiano Ferreira Campos, foram realizadas duas sessões, uma no turno da tarde e outra no da noite, para um auditório lotado de alunos e professores.

“Já limpei muito esse chão que vocês estão pisando, com muito orgulho”, revelou Mônica Cunha, ativista social e uma das personagens do filme. Emocionada, Mônica contou que trabalhou na limpeza do CPII como terceirizada e que agora voltava para compartilhar sua luta que representa a de tantas mães que perderam seus filhos para a violência urbana.

Naquela tarde, com sua história e sua relação inesperada com o colégio Pedro II, Mônica Cunha seria a primeira personagem a arrebatar a platéia, “a sair da tela” para convidar a todos a refletir e a se enxergar naquela realidade trazida pelo filme e pelo seu relato.

Alunos e professores começaram a fazer perguntas e contar sua própria história, seus relatos que se confundiam com passagens do filme, que se refletiam nas suas próprias angústias e questionamentos. Era realidade aumentada, ampliada, compartilhada.

“Mulheres negras faveladas são um alvo em dobro” desabafou uma aluna. “É estranho que, de certa forma, me sinto acolhida pelo filme, por ver minha realidade refletida ali” completou outra aluna moradora da Rocinha.

Também presente no debate, o policial civil e um dos idealizadores do filme Sérgio Barata foi bastante argüido pelos alunos e professores. Defendendo que toda sociedade democrática precisa da polícia, mas de uma polícia cidadã e que respeite os direitos humanos, Barata respondeu como era trabalhar numa instituição marcada pelos estigmas da violência e da corrupção.

“A polícia é parte da sociedade e é um reflexo do que está acontecendo com todos nós, não a causa” afirmou. “O primeiro passo para modificar essa realidade é tentarmos nos despir dos nossos preconceitos e buscarmos informação. Acho que esse é um dos grandes méritos desse filme, permitir que tenhamos acesso a diferentes visões e possamos discutir, apontar caminhos”.

Barata completou que somente abandonando o preconceito ele poderia estar num debate ao lado do Robson Borges, o Robinho Liberdade, a quem ele disse ter perseguido no passado em incursões policiais.

Bem-humorado e contundente em suas falas, Robinho aproveitou a deixa e falou de sua trajetória, desde a vida no crime, passando pela prisão e culminando num processo de autoconhecimento que o possibilitou se reconciliar com sua família.

O diretor do filme Renato Martins disse que a história de Robinho é de superação e que só comprova o preconceito com os egressos do sistema penal, que permanecem condenados pela sociedade mesmo após cumprirem suas penas.

Da platéia, uma aluna interveio: “A gente vive isso todo dia! Precisa mesmo ver isso numa tela para perceber o que a gente passa”, disse a jovem do Coletivo de Negrxs do Colégio.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OK